De acordo com o site: Culto da Vida, que trata de mitologia e misticismo, o Ouroboros é “A serpente que devora a própria cauda, é um símbolo com mais de 3 mil anos, e que regularmente retorna à nossa consciência coletiva das mais diversas formas” .
Tratá-se de um ícone de auto-suficiência, mas também uma simbologia do infinito. É muito fácil olhar esta imagem e compreender que trata-se de algo sem começo nem fim, mas em diferentes culturas o Ouroboros também é crescimento, pois à cada volta, alimentando-se de si, o Ouroboros magicamente torna-se maior e mais poderoso.
- Não nos lembra algo?
Esta antiga figura mística me ajuda a explicar uma faceta de nossa história.
Há muitos anos o Estado do Maranhão, assim mesmo, com “E” maiúsculo e “M” maiúsculo como manda o figurino, porque a terra é boa, o bicho é que é feio, pois bem, essa terra vem se tornando cada vez mais pesarosamente a cauda que é comida por este “monstro mitológico”. Esse Ouroboros maranhense é uma entidade capaz de sobreviver a tudo e ressurgir mais viva do que nunca.
Bom, é claro que não estou falando dos que já partiram e permanecem vivos pela sua arte, como João do Vale ou Gonçalves Dias, ou de sua luta como Maria Aragão ou Padre Josimo, também não falo dos ainda encarnados que vivem em nosso Estado.
O Bicho de que falo reside atualmente com a cabeça em Brasília, o corpo no Amapá e ainda “Comendo a Cauda” do Maranhão!
É incrível analisar e admirar a capacidade quase messiânica que a oligarquia dominante no nosso Estado tem de manter-se viva após os mais improváveis reveses.
Sarney (bate na madeira) surge na nossa história como uma minhoca na hierarquia dos bichos que são ou parecem cobra (aliás, se tem algo de que ele entende é de hierarquia). Andando nos corredores do mesmo Palácio dos Leões, que seria seu domínio por 45 anos, ele começa a se alimentar de si mesmo, da sua rara capacidade de impressionar, do polimento lustroso de seu casco indestrutível, da gentileza de seus modos, da “qualidade” de sua oratória e da impressionante capacidade de articular, cada vez mais cresce e, já adaptado à desfrutar do próprio prestígio, começa a se aventurar pelos escalões federais.
É aí que assume definitivamente a forma do Ouroboros...
Golpe militar de 64!
A cauda (o Maranhão) que o alimentava, até então civil, democrática, trabalhista, getulista, passa ser uma cauda militar, “coturnista”, “hierarquista”, coronelista, e cada vez mais a pequena minhoca funcionária do Palácio dos Leões, alimentando-se de si torna-se mais e mais militar. Impressionante que, após décadas comendo coturnos, você via o Sarney (bate na madeira) de terno entre os fardados e não conseguia diferenciar nada, era igualzinho, era a mesma pessoa.
E assim foi sua primeira volta em torno de si. Saiu mais forte, maior, já não era possível calcular com facilidade a esfera de sua influência.
Mas, como toda entidade mitológica que se preze, e com a astúcia aguçada que sempre lhe ajudou a prever os fatos ele soube, bem antes dos outros, que o fim da era dos coturnos estava próximo, não era possível conter a mudança e, antes que os militares cedessem o poder, cá estava o Ouroboros da baixada maranhense de braços dados com Tancredo Neves, sendo eleito vice-presidente da República e com sorte de semi-deus que ele pretende ser, assume de forma ilegítima e imoral por 5 anos a presidência da República.
Essa segunda volta em torno de si foi mais rápida, porém, a que mais o fortaleceu. Seu alimento não era mais democrático, nem ditatorial; ele era o próprio poder agora, e na mais catastrófica gestão que o País já viu. Alimentando-se da fome e indigência alheias, ele cresce em patrimônio, em rede de comunicações, em influência no judiciário, em apoio empresarial. E o Maranhão, eterna cauda que lhe alimenta, cai na mais desgraçada fase de mendicância.
Após sair do poder, nosso Ouroboros ainda se alimenta do Neoliberalismo em moda na Europa, mas, sem muita força dentro do Governo de Fernando Henrique, volta-se mais do que nunca para solidificar a sua oligarquia no Estado, elegendo a filha governadora por duas vezes.
Com Lula na presidência tudo foi mais fácil. Sarney (bate na madeira) reassume a Presidência do Senado, nomeia ministros, garante apoios, compra apoios e exige apoios. E sobre essa história recente, pouco precisa ser dito; têm-se visto, para vergonha coletiva, o “companheiro” (me lembra o amigo da onça) pedir voto pra “Oligarquia da Serpente” como diria meu mestre Othelino.
Onde quero chegar com essa reflexão sobre Sarney (bate na madeira) o Ouroboros maranhense?
Quero chamar atenção para o fato de que a existência desta besta pode ser interrompida, que o seu crescimento pode ser detido.
Pouco me importaria se o seu alimento fosse a própria cauda. Se fosse só isso, que Deus o abençoasse e que crescesse até explodir, pouco ou nada me diria respeito. O que me importa é saber que essa cauda que está sendo comida é a nossa; que o alimento desse bicho é o meu e o seu suor; que o que falta em minha mesa e na panela da Dona Maria lá em Viana está na despensa desse monstro que nunca conseguimos matar de vez.
É preciso cortar esse ciclo, dar fim a essa interminável matança de nossa dignidade.
Querem sinônimos?
Esse ciclo de vida e morte, vida dele e morte nossa, é:
Assassinato de nossa esperança.
E viver sem esperança é como não viver.
Cortar a cauda ou a cabeça, findar o ciclo, interromper a renovação, não permitir que se complete outra volta, é nosso dever, sim, dever! Devemos isso aos nossos filhos. Precisamos entregar às gerações futuras um mundo livre, um Estado livre, um Maranhão com “M” maiúsculo, que não existe para alimentar nenhum monstro mitológico, e sim pra fazer de seus cidadãos Homens e Mulheres livres e prósperos.
Cabe a nós, Homens e Mulheres livres, confirmar em 2010 a decisão tomada em 2006 e roubada em 2009, quando, alimentando-se do próprio poder, esta criatura, que se renova ciclo após ciclo, nos roubou o governo que elegemos.
Não podemos subestimá-lo; não podemos baixar a guarda, piscar já é perigoso nesses tempos de eleições.
Quebrar um ciclo e começar outros e outros, deixar que a primavera suceda o inverno, que para o Maranhão foi inferno, enterrar essa serpente (não no Convento das Mercês, pelo amor de Deus) é mais que uma decisão política, é quitar um débito que não devemos transferir a nossos filhos.
É exigir de volta do Ouroboros, a cauda do Maranhão, que ele comeu...
terça-feira, 14 de setembro de 2010
sábado, 3 de julho de 2010
Julgamento do Assassino de Dorothy Stang
Gostaria de começar este relatório fazendo uma pergunta que passou pela cabeça de muitos dos meus colegas de viagem:
- O que um Luterano está fazendo aqui?
Pra esclarecer melhor as coisas a todos, quero primeiro esclarecer do que estamos falando.
No último culto celebrado em nossa comunidade, no dia 25 de Abril, a nossa Pastora: Franciele Sander perguntou qual de nós, estaria disponível para acompanhar o julgamento do mandante do assassinato da missionária cristã Dorothy Stang, homicídio tragicamente ocorrido no sul do Pará, na cidade de Anapú em 2005.
A viagem se daria em caravana com as irmãs de Notre Damme na noite de quinta-feira dia 29 e o julgamento na sexta, 30 de abril.
Empolgado com a possibilidade da viagem me prontifiquei a ir.
Voltamos então à pergunta que passava pela cabeça de muitos que viajavam comigo e outros tantos que conheci por lá, vindos de diversas regiões do norte e nordeste do país:
- O que um Luterano está fazendo aqui?
Gostaria de começar a responder com alguns versos de Bertolt Brecht, dramaturgo e poeta marxista alemão.
Primeiro levaram os comunistas
Mas não me importei com isso, Eu não era comunista
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso, Eu também não era operário
Depois prenderam os sindicalistas
Mas não me importei com isso, Porque eu nunca fui sindicalista
Depois agarraram uns sacerdotes
Mas como não sou religioso, Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde. Agora estão me levando, Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Essa é apenas a primeira parte da importante resposta que devemos dar ao mundo como cristãos, e que eu devo dar como cristão luterano, Brecht nos diz em seus versos que defender os direitos dos outros é garantir que os seus próprios direitos não sejam desrespeitados pelos poderosos ou pelos usurpadores do poder, logo, lutar pelo cumprimento da justiça no caso Dorothy foi lutar pela paz no nosso país, lutar por nossos filhos, lutar por nosso povo.
E isso é apenas uma das coisas que um luterano fazia ali.
Mesmo com o atraso muitos de nós representantes da caravana do Maranhão, bem como os luteranos de Belém, conseguimos entrar no plenário do Júri, dessa forma me senti representado e abdiquei da disputa por uma vaga na fila em favor das irmãs de Dorothy Stang (suas irmãs religiosas, dos ruralistas e camponeses de Anapú e de representantes dos diversos movimentos que lutaram ao lado dela em sua vida e passagem pelo Brasil
As horas passavam e as notícias que vinham do tribunal eram confusas, desconexas, chegou-se a pensar no meio da tarde que o réu seria libertado por falta de provas, que havia um acordo entre a defesa e a promotoria, chegou-se a dizer que nada daquilo teria fruto e que mais uma vez não seria feita justiça.
Do lado de fora um potente carro de som colocado pela família de Regivaldo Galvão, o “taradão” como é conhecido no Pará o responsável, o mandante e mentor intelectual da morte de irmã Dorothy, este carro entoava hinos evangélicos na maior altura possível nos impedido até mesmo de conversar ou de tentar compreender as informações que nos chegavam de todo lado.
Nós, de nosso lado, com um humilde violão plugado em um Chevette 86 com pequenas caixas de som cantávamos as nossas canções, fazíamos nossas orações e nos motivávamos mutuamente como podíamos, revezando-nos no microfone do qual fiz uso por três vezes lembrando a nossa missão de sal da terra e luz do mundo, da nossa missão como cidadão e da nossa missão como homens e mulheres de bem.
Cantamos Geraldo Vandré,
Lembramos Martim Luther King em nossas camisas,
Declamamos Poesias,
Puxamos palavras de ordem,
Choramos, rezamos e cantamos por todo aquele dia...
Às sete horas da noite, completando onze horas de julgamento, as pessoas de nosso grupo que àquela altura era de algumas centenas recusavam-se a sair da fila mesmo para comer, tentando assistir ao último ato daquele espetáculo histórico.
Carros de todas as emissoras de TV, jornais e rádios com seus cabos, suas antenas, seus microfones e câmeras e equipamentos diversos nos cercavam. Não nos entrevistavam por que viam o rosto de irmã Dorothy em nossas camisas.
Por volta das nove horas ninguém mais entrava ou saía do tribunal, eram as últimas réplicas e tréplicas possíveis da defesa e promotoria.
De um lado o poder econômico dos fazendeiros do sul do Pará, os donos da terra, os reis do gado, os coronéis, aqueles que por séculos decidem a vida ou a morte nos campos brasileiros, os que mataram impunemente desde tempos remotos em nosso país.
Como mataram Chico Mendes, como mataram Padre Josimo, como mataram em Eldorado dos Carajás, como vêm matando, usurpando, roubando e mentindo.
Do outro lado freiras, padres, missionários e missionárias, mães sem terra, homens de mãos feridas do cabo das ferramentas, jornalistas de esquerda, funcionários públicos, profissionais liberais e homens e mulheres de bem, alguns pobres outros ricos, mas todos dignos, responsáveis apenas por seus pecados cotidianos, confiando apenas na justiça.
Diferentes credos e incredulidades, convicções e vocações, focando os olhos apenas em um objetivo comum, que os homens se manifestassem pela promoção do Reino de Deus na terra através cumprimento da justa justiça.
Entre esses dois mundos uma parede composta por sete membros do júri, imparcial e legitimamente representativo e legal e publicamente composto, decidiria que grupo sairia dali sorrindo ou chorando.
Perto das onze da noite o Júri se recolheu para deliberar, perdemos a noção do tempo, já não sabíamos mais há quanto tempo estávamos ali, há quanto tempo sem comer ou quanto tempo longe de casa.
O Júri retorna e o juiz lê a sentença:
- Culpado à pena máxima!
Levanto a cabeça para o relógio na parede do fórum, são 00h10min do novo dia, é primeiro de maio, é o dia do trabalhador, Dorothy teria gostado desse veredicto neste dia, Dorothy choraria conosco.
Do lado de fora nosso povo cantava:
Caminhando e cantando e seguindo a canção...
Cantavam xotes e baiões, carimbós e boi bumbás...
Um irmão da missionária assassinada vindo dos EUA se pronunciou agradecendo ao Brasil e aos brasileiros, falando em inglês, traduzido por alguém, os advogados também se pronunciaram, muitos agradecimentos e citações.
Justiça fora feita, mas eu já não cantava, encostado distante da luz das TVs que filmavam aquela pequena multidão em festa e dos frenéticos fotógrafos que disparavam flashes como tiros eu avaliava aquilo.
Todos ali fora comemoravam inclusive o Senador Jose Nery do PSOL do Pará, a quem agora devo minha admiração e exteriorizo o meu muito obrigado por ainda fazer parte da luta, mesmo com uma cadeira lá encima, no senado federal.
Eu ali, rindo um pouco da alegria de uma freira polonesa que dançava num trenzinho ao som de uma música de Alceu Valença, me veio a triste e incômoda certeza de nesse final não havia muito que comemorar.
Afinal, a missionária Dorothy estava morta, uma vida fora ceifada, uma militante fora calada, mais uma cristã havia sido martirizada...
Veio-me uma segunda consciência que prevaleceu sobre esta primeira (de que ninguém vencera), a consciência do dever cumprido.
Dever cívico?
- Talvez!
Dever religioso?
- Acho que sim!
Dever Humano?
- Certamente! Mas isso não diz tudo.
Dever divino?
- Sim, lutar pela preservação da vida humana pela manutenção da justiça e pela promoção do Reino de Deus, levando paz na terra aos homens e mulheres de boa vontade.
No final das contas isso respondeu para mim a pergunta que eu respondi de tantas formas para os outros.
- Afinal de contas, o que um Luterano estava fazendo ali?
- Estava sendo aquilo que Cristo espera de um Cristão, sendo profeta ao denunciar as mazelas do mundo e diácono ao servir o irmão, sendo irmão ao servir o próximo e o próximo ao dar força ao irmão.
Além disso:
- O sangue dos mártires é semente, os ideais seguem vivo, o povo naquela praça, as pessoas órfãs de Dorothy precisavam de esperança e fé, e era isso que nós ali, juntos representávamos para eles.
Esperança e fé.
As pessoas continuavam comemorando, quando os avisos começaram a ser dados e o primeiro deles foi o de que o ônibus de São Luis estava na praça pronto pra partir, despedi-me de quem encontrei no caminho, abracei, cumprimentei, beijei rostos que mal conhecia.
Embarcamos naquela madrugada de 1º de maio todos cansados, muitos com fome, alguns com sono, mas nenhum, nenhum de nós, católicos, um protestante (eu), um agnóstico marxista (o jornalista ao meu lado, antigo companheiro de lutas), nenhum de nós voltou decepcionado.
Lembrei da frase de Luther King nas camisas:
- O que me assusta não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons!
Que bom que nós luteranos não ficamos calados, agora todos sabem, o que fomos fazer lá.
Como entoamos dezenas de vezes em Belém do Pará:
- Dorothy Presente...
- Dorothy Semente.
- Dorothy Semente...
- Dorothy Presente.
- Dorothy Vive...
- Sempre, sempre, sempre.
- O que um Luterano está fazendo aqui?
Pra esclarecer melhor as coisas a todos, quero primeiro esclarecer do que estamos falando.
No último culto celebrado em nossa comunidade, no dia 25 de Abril, a nossa Pastora: Franciele Sander perguntou qual de nós, estaria disponível para acompanhar o julgamento do mandante do assassinato da missionária cristã Dorothy Stang, homicídio tragicamente ocorrido no sul do Pará, na cidade de Anapú em 2005.
A viagem se daria em caravana com as irmãs de Notre Damme na noite de quinta-feira dia 29 e o julgamento na sexta, 30 de abril.
Empolgado com a possibilidade da viagem me prontifiquei a ir.
Voltamos então à pergunta que passava pela cabeça de muitos que viajavam comigo e outros tantos que conheci por lá, vindos de diversas regiões do norte e nordeste do país:
- O que um Luterano está fazendo aqui?
Gostaria de começar a responder com alguns versos de Bertolt Brecht, dramaturgo e poeta marxista alemão.
Primeiro levaram os comunistas
Mas não me importei com isso, Eu não era comunista
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso, Eu também não era operário
Depois prenderam os sindicalistas
Mas não me importei com isso, Porque eu nunca fui sindicalista
Depois agarraram uns sacerdotes
Mas como não sou religioso, Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde. Agora estão me levando, Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Essa é apenas a primeira parte da importante resposta que devemos dar ao mundo como cristãos, e que eu devo dar como cristão luterano, Brecht nos diz em seus versos que defender os direitos dos outros é garantir que os seus próprios direitos não sejam desrespeitados pelos poderosos ou pelos usurpadores do poder, logo, lutar pelo cumprimento da justiça no caso Dorothy foi lutar pela paz no nosso país, lutar por nossos filhos, lutar por nosso povo.
E isso é apenas uma das coisas que um luterano fazia ali.
Mesmo com o atraso muitos de nós representantes da caravana do Maranhão, bem como os luteranos de Belém, conseguimos entrar no plenário do Júri, dessa forma me senti representado e abdiquei da disputa por uma vaga na fila em favor das irmãs de Dorothy Stang (suas irmãs religiosas, dos ruralistas e camponeses de Anapú e de representantes dos diversos movimentos que lutaram ao lado dela em sua vida e passagem pelo Brasil
As horas passavam e as notícias que vinham do tribunal eram confusas, desconexas, chegou-se a pensar no meio da tarde que o réu seria libertado por falta de provas, que havia um acordo entre a defesa e a promotoria, chegou-se a dizer que nada daquilo teria fruto e que mais uma vez não seria feita justiça.
Do lado de fora um potente carro de som colocado pela família de Regivaldo Galvão, o “taradão” como é conhecido no Pará o responsável, o mandante e mentor intelectual da morte de irmã Dorothy, este carro entoava hinos evangélicos na maior altura possível nos impedido até mesmo de conversar ou de tentar compreender as informações que nos chegavam de todo lado.
Nós, de nosso lado, com um humilde violão plugado em um Chevette 86 com pequenas caixas de som cantávamos as nossas canções, fazíamos nossas orações e nos motivávamos mutuamente como podíamos, revezando-nos no microfone do qual fiz uso por três vezes lembrando a nossa missão de sal da terra e luz do mundo, da nossa missão como cidadão e da nossa missão como homens e mulheres de bem.
Cantamos Geraldo Vandré,
Lembramos Martim Luther King em nossas camisas,
Declamamos Poesias,
Puxamos palavras de ordem,
Choramos, rezamos e cantamos por todo aquele dia...
Às sete horas da noite, completando onze horas de julgamento, as pessoas de nosso grupo que àquela altura era de algumas centenas recusavam-se a sair da fila mesmo para comer, tentando assistir ao último ato daquele espetáculo histórico.
Carros de todas as emissoras de TV, jornais e rádios com seus cabos, suas antenas, seus microfones e câmeras e equipamentos diversos nos cercavam. Não nos entrevistavam por que viam o rosto de irmã Dorothy em nossas camisas.
Por volta das nove horas ninguém mais entrava ou saía do tribunal, eram as últimas réplicas e tréplicas possíveis da defesa e promotoria.
De um lado o poder econômico dos fazendeiros do sul do Pará, os donos da terra, os reis do gado, os coronéis, aqueles que por séculos decidem a vida ou a morte nos campos brasileiros, os que mataram impunemente desde tempos remotos em nosso país.
Como mataram Chico Mendes, como mataram Padre Josimo, como mataram em Eldorado dos Carajás, como vêm matando, usurpando, roubando e mentindo.
Do outro lado freiras, padres, missionários e missionárias, mães sem terra, homens de mãos feridas do cabo das ferramentas, jornalistas de esquerda, funcionários públicos, profissionais liberais e homens e mulheres de bem, alguns pobres outros ricos, mas todos dignos, responsáveis apenas por seus pecados cotidianos, confiando apenas na justiça.
Diferentes credos e incredulidades, convicções e vocações, focando os olhos apenas em um objetivo comum, que os homens se manifestassem pela promoção do Reino de Deus na terra através cumprimento da justa justiça.
Entre esses dois mundos uma parede composta por sete membros do júri, imparcial e legitimamente representativo e legal e publicamente composto, decidiria que grupo sairia dali sorrindo ou chorando.
Perto das onze da noite o Júri se recolheu para deliberar, perdemos a noção do tempo, já não sabíamos mais há quanto tempo estávamos ali, há quanto tempo sem comer ou quanto tempo longe de casa.
O Júri retorna e o juiz lê a sentença:
- Culpado à pena máxima!
Levanto a cabeça para o relógio na parede do fórum, são 00h10min do novo dia, é primeiro de maio, é o dia do trabalhador, Dorothy teria gostado desse veredicto neste dia, Dorothy choraria conosco.
Do lado de fora nosso povo cantava:
Caminhando e cantando e seguindo a canção...
Cantavam xotes e baiões, carimbós e boi bumbás...
Um irmão da missionária assassinada vindo dos EUA se pronunciou agradecendo ao Brasil e aos brasileiros, falando em inglês, traduzido por alguém, os advogados também se pronunciaram, muitos agradecimentos e citações.
Justiça fora feita, mas eu já não cantava, encostado distante da luz das TVs que filmavam aquela pequena multidão em festa e dos frenéticos fotógrafos que disparavam flashes como tiros eu avaliava aquilo.
Todos ali fora comemoravam inclusive o Senador Jose Nery do PSOL do Pará, a quem agora devo minha admiração e exteriorizo o meu muito obrigado por ainda fazer parte da luta, mesmo com uma cadeira lá encima, no senado federal.
Eu ali, rindo um pouco da alegria de uma freira polonesa que dançava num trenzinho ao som de uma música de Alceu Valença, me veio a triste e incômoda certeza de nesse final não havia muito que comemorar.
Afinal, a missionária Dorothy estava morta, uma vida fora ceifada, uma militante fora calada, mais uma cristã havia sido martirizada...
Veio-me uma segunda consciência que prevaleceu sobre esta primeira (de que ninguém vencera), a consciência do dever cumprido.
Dever cívico?
- Talvez!
Dever religioso?
- Acho que sim!
Dever Humano?
- Certamente! Mas isso não diz tudo.
Dever divino?
- Sim, lutar pela preservação da vida humana pela manutenção da justiça e pela promoção do Reino de Deus, levando paz na terra aos homens e mulheres de boa vontade.
No final das contas isso respondeu para mim a pergunta que eu respondi de tantas formas para os outros.
- Afinal de contas, o que um Luterano estava fazendo ali?
- Estava sendo aquilo que Cristo espera de um Cristão, sendo profeta ao denunciar as mazelas do mundo e diácono ao servir o irmão, sendo irmão ao servir o próximo e o próximo ao dar força ao irmão.
Além disso:
- O sangue dos mártires é semente, os ideais seguem vivo, o povo naquela praça, as pessoas órfãs de Dorothy precisavam de esperança e fé, e era isso que nós ali, juntos representávamos para eles.
Esperança e fé.
As pessoas continuavam comemorando, quando os avisos começaram a ser dados e o primeiro deles foi o de que o ônibus de São Luis estava na praça pronto pra partir, despedi-me de quem encontrei no caminho, abracei, cumprimentei, beijei rostos que mal conhecia.
Embarcamos naquela madrugada de 1º de maio todos cansados, muitos com fome, alguns com sono, mas nenhum, nenhum de nós, católicos, um protestante (eu), um agnóstico marxista (o jornalista ao meu lado, antigo companheiro de lutas), nenhum de nós voltou decepcionado.
Lembrei da frase de Luther King nas camisas:
- O que me assusta não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons!
Que bom que nós luteranos não ficamos calados, agora todos sabem, o que fomos fazer lá.
Como entoamos dezenas de vezes em Belém do Pará:
- Dorothy Presente...
- Dorothy Semente.
- Dorothy Semente...
- Dorothy Presente.
- Dorothy Vive...
- Sempre, sempre, sempre.
terça-feira, 22 de junho de 2010
Ai meu Deus, tem dó de mim!
Pro’nde que eu sou?
O que’u tô sendo?
Que tão me fazendo?
Como é que vou?
Você que vê da cidade
Não sabe do caranguejo a metade
Dessa lama que eu comi.
Não sabe da reza a vontade
Ai Meu Deus tem dó de mim!
Mas é roçando descalço que se colhe de alpercata
É parindo com dor que se gera um doutor
Eta medo pai-d’égua, eita vida medonha
É o medo do medo, é a vida é o velório
Pro’nde que eu sou?
O que’u tô sendo?
Que tão me fazendo?
Como é que vou?
Ainda tem você Menina
Sempre mal acostumada
A ser sempre bem amada, mimada
Não sabe o fim de quem ama gente ruim
Ai meu Deus tem dó de mim!
Mas é roçando descalço que se colhe de alpercata
É parindo com dor que se gera um doutor
Eta medo pai-d’égua, eita vida medonha
É o medo do medo, é a vida é o velório.
Fabiano Soares
O que’u tô sendo?
Que tão me fazendo?
Como é que vou?
Você que vê da cidade
Não sabe do caranguejo a metade
Dessa lama que eu comi.
Não sabe da reza a vontade
Ai Meu Deus tem dó de mim!
Mas é roçando descalço que se colhe de alpercata
É parindo com dor que se gera um doutor
Eta medo pai-d’égua, eita vida medonha
É o medo do medo, é a vida é o velório
Pro’nde que eu sou?
O que’u tô sendo?
Que tão me fazendo?
Como é que vou?
Ainda tem você Menina
Sempre mal acostumada
A ser sempre bem amada, mimada
Não sabe o fim de quem ama gente ruim
Ai meu Deus tem dó de mim!
Mas é roçando descalço que se colhe de alpercata
É parindo com dor que se gera um doutor
Eta medo pai-d’égua, eita vida medonha
É o medo do medo, é a vida é o velório.
Fabiano Soares
quarta-feira, 26 de maio de 2010
EM TOM PASTEL
História de quarta.
Em tom pastel
Nosso ônibus seguia rumo à Picos no Piauí, tudo ao redor era um borrão em não mais que meia dúzia de cores, insuportavelmente semelhantes, que nunca eram mais escuras que o marrom e nunca mais claras que o bege, nunca mais vivas que um pálido e desbotado barro sem cor.
Um pneu furado, uma parada.
Quarenta cristãos indo para um congresso cristão parados entre o “nada” do sertão nordestino e o “coisa nenhuma” do interior do Brasil.
Um único abrigo, o mesmo bendito ônibus.
Calor, sol, calor, sede, calor, Piauí! Janelas fechadas: mais calor, janelas abertas: terra na cara.
Passo à passo as maldições e pragas, evoluíam:
- Maldito pneu!
- Que sede do cão!
- Motorista burro!
- Estrada infeliz!
- Governo miserável!
- Terra quente dos infernos!
Pela seqüência Deus seria o próximo a ser citado, preferi descer do ônibus antes disso.
Sentado no chão do acostamento à meia sombra do ônibus, sozinho era melhor que mal acompanhado,
“Quarenta cristãos sem água podem ser muito mais desagradáveis do que dois ateus sem cerveja”
Foi ali, sentado naquele chão encardido de terra amarelada que vi o vulto se aproximando. Era bege!
Trazia uma criança magra e amarela de terra no braço esquerdo, uma trouxa pendurada e amarela no ombro direito e um balde marrom milagrosamente equilibrado em sua cabeça, vinha andando a uns cinqüenta metros de distância, na direção do ônibus.
Era magra, pequena e quase invisível por ser da mesma cor do restante da paisagem, mesmo sem o vento (inexistente no Piauí), os panos que lhe cobriam o corpo lhe colavam em sua pele e ossos, caminhava rápido, como convém aos que não têm pressa, e nem aonde ir, seus passos eram longos, elegantes e firmes pro seu tamanho, com a aproximação sua aparente fragilidade ia transformando-se em um “que” de dignidade e um muito de “realeza”, sabe Deus herdado de onde...
Sua pele parecia marrom, mais escura que a terra que pisava, um nada mais claro que seu cabelo liso e duro de tanto absorver essa mesma terra.
A criança em seu braço era morena, não como ela de sol, mas como brasileiro, criança mulata, mais negra que branca, coberto de pó parecia da cor do Piauí, de cabelos encaracolados quase crespos como de um africano, dourados como os de um europeu, olhos amarelos, nem verdes nem castanhos, amarelos.
Do balde na cabeça daquele vulto respingava ou escorria um pouco de água rara ali naquela savana americana, molhava à ela e à criança e imaginei que aquilo aliviasse o calor que sentiam.
Duas jovens cristãs desceram do ônibus, com suas garrafas plásticas de refrigerante, seus fones de ouvido e seus pacotes de bolacha recheada, falaram comigo, não ouvi.
Eu via o vulto.
A poucos metros de mim pude ver mais detalhes do seu rosto, rugas e marcas profundas lhe imputavam uma idade que não tinha, poderia passar por uma senhora de cinqüenta anos, mas certamente ainda não chegara aos vinte e cinco.
Seus olhos se ergueram.
E daquele mar em tom pastel, daquele infinito marrom e bege que é o Piauí emergiram dois brilhantes e fortíssimos olhos verdes, verdes como esmeraldas, como jades brilhantes, verdes como o mar mais lindo, verde como o verde deve ser em sonhos...
Olhou-me nos olhos como quem olha um réu, me senti um réu.
As adolescentes praguejavam do meu lado, contra o calor, contra a distância, contra a falta do que fazer, contra o CD de música baiana que não trouxeram , contra o lugar.
Os ouvidos daquela mulher captaram isso, sem que seu passo se alterasse, sem que seus olhos se desviassem dos meus, aliás, seus olhos, foram as únicas coisas que se alteraram ali.
Embruteceram-se ainda mais!
Seus olhos eram agora um só com aquele vento escaldante, com o reflexo do sol na terra que nos cegava, com o pó que me enchia as narinas, eu não era mais o réu, era o condenado.
As esmeraldas que me julgaram me imputaram toda culpa de todos os séculos de miséria do sertão nordestino, furtado, roubado e estuprado por europeus, não europeus e brasileiros pseudo-europeus, todos os governos corruptos, todos os cristãos charlatões que já venderam salvações e todos os pedófilos de bata, eu era culpado por todos os filhos que partiram daquela terra pra morrer no sudeste do país humilhados por um povo pior que o nosso.
Mas não foi o que aqueles olhos disseram o que me matou, não foi o “falar” silencioso, foi o “calar” ensurdecedor.
Foi o fechar das cortinas, o apagar das luzes, ao baixar aqueles olhos e seguir seu caminho foi que ela me disse o mais doído de tudo.
A resignação dolorosa de uma cabeça baixa, de quem não tem mais forças pra lutar.
A cabeça baixa de uma vergonha que não era dela por uma pobreza que não causara.
Foi isso que falou em meu coração:
- Você com sua ciência e sua consciência ecológica, com sua religião e seu Lutero, com sua “luta” e seu Karl Marx, você com seus textos, seus livros e sua faculdade, você nunca vai entender o que estes pés rachados e este balde significam.
As jovens agora riam alto de algo que não tinha a menor idéia do que poderia ser, jogavam plásticos no chão marrom e me ocorreu a triste consciência de que elas se quer estavam percebendo a passagem daquele vulto.
Atrás dela, do vulto, um vulto menor caminhava, acanhado e escondido, semelhante uma miniatura da primeira, olhos verdes, cabelos longos lisos e duros, roupas ou melhor dizendo, panos, olhou os vistosos plásticos de bolachas recheadas no chão, vazios, tentou esticar os braços para pegar.
Uma breve alteração no caminhar daquela mãe que percebeu a intenção da filha sem olhar para trás e um fulminante ralhar entre os dentes que poderia se comparar à um rosnado, a fizeram desistir inquestionavelmente.
Eram pobres aos olhos de todos, mas não precisavam ser miseráveis perante ninguém. Seguiram seu caminho com a menina olhando para trás, talvez marcando o local onde estavam os plásticos, quem sabe amanhã?
Minutos depois os motoristas concluíram a troca do pneu e seguimos viagem em junho de 1999.
Pergunto-me: Que é dessa gente? Que é desse sertão? Que é daquele grupo de quarenta cristãos?
Que é desse menino de colo? Dessa menina magrinha tentando pegar plásticos coloridos?
Que é daquele vulto sem idade?
Andando ainda como zumbis com roupas cobertas de terra bege? Ou cobertos definitivamente de terra? No mesmo mar marrom onde sofreram a vida a sofrer a morte?
Onze anos depois ainda me dói saber que minha ciência, minha religião, meu ideal político nunca vão entender o que são três vultos em tom pastel num mar sem cor, no meio do nada do Brasil.
Fabiano Soares
Saoluis-maranhao@hotmail.com
Em tom pastel
Nosso ônibus seguia rumo à Picos no Piauí, tudo ao redor era um borrão em não mais que meia dúzia de cores, insuportavelmente semelhantes, que nunca eram mais escuras que o marrom e nunca mais claras que o bege, nunca mais vivas que um pálido e desbotado barro sem cor.
Um pneu furado, uma parada.
Quarenta cristãos indo para um congresso cristão parados entre o “nada” do sertão nordestino e o “coisa nenhuma” do interior do Brasil.
Um único abrigo, o mesmo bendito ônibus.
Calor, sol, calor, sede, calor, Piauí! Janelas fechadas: mais calor, janelas abertas: terra na cara.
Passo à passo as maldições e pragas, evoluíam:
- Maldito pneu!
- Que sede do cão!
- Motorista burro!
- Estrada infeliz!
- Governo miserável!
- Terra quente dos infernos!
Pela seqüência Deus seria o próximo a ser citado, preferi descer do ônibus antes disso.
Sentado no chão do acostamento à meia sombra do ônibus, sozinho era melhor que mal acompanhado,
“Quarenta cristãos sem água podem ser muito mais desagradáveis do que dois ateus sem cerveja”
Foi ali, sentado naquele chão encardido de terra amarelada que vi o vulto se aproximando. Era bege!
Trazia uma criança magra e amarela de terra no braço esquerdo, uma trouxa pendurada e amarela no ombro direito e um balde marrom milagrosamente equilibrado em sua cabeça, vinha andando a uns cinqüenta metros de distância, na direção do ônibus.
Era magra, pequena e quase invisível por ser da mesma cor do restante da paisagem, mesmo sem o vento (inexistente no Piauí), os panos que lhe cobriam o corpo lhe colavam em sua pele e ossos, caminhava rápido, como convém aos que não têm pressa, e nem aonde ir, seus passos eram longos, elegantes e firmes pro seu tamanho, com a aproximação sua aparente fragilidade ia transformando-se em um “que” de dignidade e um muito de “realeza”, sabe Deus herdado de onde...
Sua pele parecia marrom, mais escura que a terra que pisava, um nada mais claro que seu cabelo liso e duro de tanto absorver essa mesma terra.
A criança em seu braço era morena, não como ela de sol, mas como brasileiro, criança mulata, mais negra que branca, coberto de pó parecia da cor do Piauí, de cabelos encaracolados quase crespos como de um africano, dourados como os de um europeu, olhos amarelos, nem verdes nem castanhos, amarelos.
Do balde na cabeça daquele vulto respingava ou escorria um pouco de água rara ali naquela savana americana, molhava à ela e à criança e imaginei que aquilo aliviasse o calor que sentiam.
Duas jovens cristãs desceram do ônibus, com suas garrafas plásticas de refrigerante, seus fones de ouvido e seus pacotes de bolacha recheada, falaram comigo, não ouvi.
Eu via o vulto.
A poucos metros de mim pude ver mais detalhes do seu rosto, rugas e marcas profundas lhe imputavam uma idade que não tinha, poderia passar por uma senhora de cinqüenta anos, mas certamente ainda não chegara aos vinte e cinco.
Seus olhos se ergueram.
E daquele mar em tom pastel, daquele infinito marrom e bege que é o Piauí emergiram dois brilhantes e fortíssimos olhos verdes, verdes como esmeraldas, como jades brilhantes, verdes como o mar mais lindo, verde como o verde deve ser em sonhos...
Olhou-me nos olhos como quem olha um réu, me senti um réu.
As adolescentes praguejavam do meu lado, contra o calor, contra a distância, contra a falta do que fazer, contra o CD de música baiana que não trouxeram , contra o lugar.
Os ouvidos daquela mulher captaram isso, sem que seu passo se alterasse, sem que seus olhos se desviassem dos meus, aliás, seus olhos, foram as únicas coisas que se alteraram ali.
Embruteceram-se ainda mais!
Seus olhos eram agora um só com aquele vento escaldante, com o reflexo do sol na terra que nos cegava, com o pó que me enchia as narinas, eu não era mais o réu, era o condenado.
As esmeraldas que me julgaram me imputaram toda culpa de todos os séculos de miséria do sertão nordestino, furtado, roubado e estuprado por europeus, não europeus e brasileiros pseudo-europeus, todos os governos corruptos, todos os cristãos charlatões que já venderam salvações e todos os pedófilos de bata, eu era culpado por todos os filhos que partiram daquela terra pra morrer no sudeste do país humilhados por um povo pior que o nosso.
Mas não foi o que aqueles olhos disseram o que me matou, não foi o “falar” silencioso, foi o “calar” ensurdecedor.
Foi o fechar das cortinas, o apagar das luzes, ao baixar aqueles olhos e seguir seu caminho foi que ela me disse o mais doído de tudo.
A resignação dolorosa de uma cabeça baixa, de quem não tem mais forças pra lutar.
A cabeça baixa de uma vergonha que não era dela por uma pobreza que não causara.
Foi isso que falou em meu coração:
- Você com sua ciência e sua consciência ecológica, com sua religião e seu Lutero, com sua “luta” e seu Karl Marx, você com seus textos, seus livros e sua faculdade, você nunca vai entender o que estes pés rachados e este balde significam.
As jovens agora riam alto de algo que não tinha a menor idéia do que poderia ser, jogavam plásticos no chão marrom e me ocorreu a triste consciência de que elas se quer estavam percebendo a passagem daquele vulto.
Atrás dela, do vulto, um vulto menor caminhava, acanhado e escondido, semelhante uma miniatura da primeira, olhos verdes, cabelos longos lisos e duros, roupas ou melhor dizendo, panos, olhou os vistosos plásticos de bolachas recheadas no chão, vazios, tentou esticar os braços para pegar.
Uma breve alteração no caminhar daquela mãe que percebeu a intenção da filha sem olhar para trás e um fulminante ralhar entre os dentes que poderia se comparar à um rosnado, a fizeram desistir inquestionavelmente.
Eram pobres aos olhos de todos, mas não precisavam ser miseráveis perante ninguém. Seguiram seu caminho com a menina olhando para trás, talvez marcando o local onde estavam os plásticos, quem sabe amanhã?
Minutos depois os motoristas concluíram a troca do pneu e seguimos viagem em junho de 1999.
Pergunto-me: Que é dessa gente? Que é desse sertão? Que é daquele grupo de quarenta cristãos?
Que é desse menino de colo? Dessa menina magrinha tentando pegar plásticos coloridos?
Que é daquele vulto sem idade?
Andando ainda como zumbis com roupas cobertas de terra bege? Ou cobertos definitivamente de terra? No mesmo mar marrom onde sofreram a vida a sofrer a morte?
Onze anos depois ainda me dói saber que minha ciência, minha religião, meu ideal político nunca vão entender o que são três vultos em tom pastel num mar sem cor, no meio do nada do Brasil.
Fabiano Soares
Saoluis-maranhao@hotmail.com
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